Agora, retorna à capital amazonense para lançar, pela Editora Valer, a obra A Escrita como Ato Político, um livro que propõe reflexões urgentes sobre a palavra como ferramenta de resistência e transformação social.
No último episódio do Ela Podcast, tivemos a honra de receber Marilza de Melo Foucher, uma mulher cuja trajetória transita entre o Amazonas e a França, unindo literatura, política e engajamento social. Filha de Mário Diogo de Melo – político e poeta – e prima do renomado poeta amazonense Thiago de Mello.
Marilza carrega em sua história as raízes da cultura amazônica e a vivência cosmopolita adquirida ao longo de mais de quatro décadas na Europa. Doutora em Economia, ela construiu uma sólida carreira no Brasil e no exterior. Agora, retorna à capital amazonense para lançar, pela Editora Valer, a obra A Escrita como Ato Político, um livro que propõe reflexões urgentes sobre a palavra como ferramenta de resistência e transformação social.
Durante a conversa, perguntamos a ela como figuras tão marcantes em sua vida, como seu pai Mário Diogo de Melo e seu primo Thiago de Mello, influenciaram sua trajetória acadêmica, literária e também sua militância na escrita.
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“Meu pai foi pelo contraditório. Quando a gente é jovem, às vezes tenta se libertar do pai, né? Mas com ele aprendi algo fantástico: por mais que fôssemos politicamente opostos, existia o debate contraditório. Ou seja, você debate, aceita e entende que a democracia tem um lado oposto e outro contrário. Tenta compreender as contradições de cada um e agir com respeito e civilidade. Meu pai sempre respeitou minhas posições e eu respeitei as dele.
Já o Thiago era mais na minha vertente. Sim! É a água que eu bebia, a mesma fonte, os mesmos valores de pensar o mundo e poetizar a vida. Com os dois aprendi também sobre a Amazônia — que faz parte da nossa cultura, das nossas histórias, dos nossos mitos de criança. É por isso que digo que sou da sociedade da canoa, que foi para a sociedade do metrô. E quem vem da sociedade da canoa se adapta muito mais fácil, porque sabe enfrentar correntezas, sabe escapar do remanso — a água que puxa para baixo. A gente sobe, continua navegando. Esse é o aprendizado que chamo de filosofia cabocla.”
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Ao longo da entrevista, Marilza compartilhou memórias que revelam não apenas sua trajetória intelectual, mas também o contexto histórico que moldou seu olhar para o mundo. Ela recordou os anos em que o Brasil vivia sob a ditadura militar, período em que a liberdade de expressão era cerceada e até as músicas que apreciava cantar eram proibidas. Ao chegar à França, encontrou um cenário completamente diferente — uma efervescência de liberdade. Lá, pôde frequentar cursos e palestras no Collège de France como ouvinte livre, aproximando-se de nomes que até então conhecia apenas por livros e imagens. “Assisti Michel Foucault, Pierre Bourdieu… pessoas que me orientaram nesse conhecimento pluridisciplinar”, contou.
Um episódio marcante foi quando, morando próximo ao cemitério de Montparnasse, se deparou com uma multidão reunida. Curiosa, aproximou-se e percebeu que estava diante de figuras históricas da intelectualidade francesa. “Quando perguntei, descobri que estava diante de Jean-Paul Sartre”. Para Marilza, embora a teoria seja fundamental, ela só ganha força quando dialoga com a realidade concreta das mulheres. “A gente não precisa apenas de teorias para a mulher se libertar. A contextualização da realidade que a mulher vive é o que permite que ela seja protagonista de mudanças, em qualquer situação”, destacou.
Ao falar sobre sua mais recente publicação, A Escrita como Ato Político, lançada pela Editora Valer, Marilza explicou como vê a relação entre escrita, pensamento e ação transformadora. “No momento que você escreve, você pensa. E pensar é um ato político. Até porque o fato de pensar já é uma reflexão. Quando você escreve, não pode escrever como na internet, rapidinho, com frases curtas. Você vai construir um pensamento. E, no momento em que constrói um pensamento, isso é um ato político”, afirmou.
Para ela, a escrita exige tempo, aprofundamento e consciência do impacto das palavras. E sua própria trajetória comprova isso: depois de décadas atuando na área de economia e desenvolvimento, Marilza encontrou no jornalismo um novo espaço de expressão — algo que começou após sua aposentadoria, já vivendo na França. “Lá, você não precisa se formar em jornalismo. Basta ter reconhecimento e escrever para ser jornalista”, contou.
Essa visão se conecta diretamente à proposta do livro, que apresenta a escrita não apenas como registro de ideias, mas como instrumento de resistência, construção de narrativas e defesa de causas sociais. Encerramos a entrevista ao som das palavras eternas de Thiago de Mello, no trecho de Os Estatutos do Homem, que nos lembra da urgência da verdade, da vida e da esperança:
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Fotos: Divulgação/Portal Mulher Amazônica
“Fica decretado que agora vale a verdade,
que agora vale a vida,
e que de mãos dadas,
trabalharemos todos pela vida verdadeira.
(…)
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.”
O Portal Mulher Amazônica, o Ela Podcast e sua idealizadora Maria Santana agradecem a presença de Marilza de Melo Foucher e a generosidade em compartilhar vivências que inspiram, fortalecem e somam para a construção de uma sociedade mais justa, consciente e humana.
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