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Elas nos inspiram - 21/07/2025

Entre a Água e o Fogo: As Mulheres de Vitória do Jari na linha de frente da Crise Climática

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Foto: Reprodução/Google

Chefes de família e guardiãs da vida comunitária, mulheres enfrentam desigualdades históricas e extremos climáticos que ameaçam suas casas, histórias e territórios.

A viagem até Vitória do Jari, ao sul do Amapá, é longa e desafiadora. São sete horas em estrada de terra vermelha a partir de Macapá, uma travessia de catraia — embarcação pequena usada para cruzar rios — até Monte Dourado (PA), seguida de mais 40 minutos até Munguba e uma nova travessia para voltar às terras amapaenses. É nesse percurso que se revelam as vidas de mulheres que resistem entre as margens do rio Jari, nos bairros Prainha, Comercial, Santa Clara e Cidade Livre.

 

Vitória do Jari é uma cidade dividida entre áreas altas e baixas, mas em ambas o risco é constante: alagamentos, enchentes e secas severas alternam-se ano após ano. O que antes eram fenômenos naturais cíclicos se tornaram extremos climáticos que afetam diretamente a sobrevivência das populações locais — e, sobretudo, das mulheres.

 

Segundo dados municipais, 56% das casas em áreas de risco em Vitória do Jari são chefiadas por mulheres. Fora dessas áreas, essa proporção cai para 25%, revelando o peso desigual da vulnerabilidade climática. Essas mulheres são as que amamentam, criam filhos, sustentam seus lares, cuidam da comunidade e ainda enfrentam as consequências diretas do aquecimento global.

 

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“Essas mulheres, especialmente as negras, indígenas e ribeirinhas, por viverem esses marcadores de opressão histórica, são as mais impactadas pelos eventos extremos, acumulando responsabilidades pelo cuidado da família, produção de alimentos e gestão dos recursos naturais”, explica a geógrafa Patrícia Rocha, doutora em Geografia Humana.

 

Em 2022, uma das maiores enchentes da história local atingiu 2.527 famílias, de acordo com o Relatório Ambiental Simples (RAS) da Secretaria de Meio Ambiente e Turismo. No ano seguinte, a cidade enfrentou o oposto: a seca e o fogo. E em 2025, o padrão se repete. “Sabemos que, se não houver enchente, haverá estiagem de grande proporção”, confirma Breno Urubuquara, secretário municipal de Proteção e Defesa Civil.

 

Maria Adelaide, conhecida como Lola, é uma das mulheres que vivencia os extremos. Depois de décadas convivendo com as cheias do rio, viu sua casa ser tomada pelas chamas em 2023, durante uma estiagem intensa.

 

 

O incêndio destruiu sete casas e um estabelecimento comercial. Apesar do apoio da Defesa Civil para reconstruir as moradias em áreas seguras, os moradores optaram por ficar em seu território — de frente para o rio, onde suas vidas têm raízes. Um dos fatores que agravam a vulnerabilidade das comunidades é a perda do conhecimento tradicional de construção em áreas ribeirinhas. Antes, casas sobre palafitas eram erguidas com base em saberes ancestrais sobre marés e madeiras apropriadas. Hoje, essas técnicas estão desaparecendo.

 

“O saber da construção ribeirinha vem sendo substituído. Muitas casas agora são feitas por pessoas de fora, que não conhecem a lógica das águas e dos ciclos naturais”, explica José Alberto Tostes, doutor em História e Teoria da Arquitetura. Além disso, o desemprego — agravado pelo fechamento de uma grande fábrica local — levou muitas mulheres a se tornarem arrimo de família, aumentando a sobrecarga sobre elas e diminuindo ainda mais a capacidade de adaptação frente aos desastres.

 

Fotos: Reprodução/Google

 

A crise climática, em Vitória do Jari, revela o quanto ela está interligada às desigualdades sociais. Mulheres marginalizadas sofrem mais, têm menos recursos e menos opções. E ainda assim resistem. Constroem, cuidam, organizam e se levantam das cinzas. “Nós ficamos”, diz Lola, diante da casa reconstruída à beira do rio. Não por teimosia, mas por pertencimento.

 
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Em meio ao desequilíbrio climático, é urgente reconhecer que políticas públicas eficazes precisam incluir justiça de gênero e valorização dos saberes locais. Porque quem está na linha de frente da crise também é quem mais conhece os caminhos para enfrentá-la.
 

 

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